terça-feira, 8 de julho de 2014

Acabou o Fantasma de 1950

Primeiro gostaria de pedir, assim como Bourdieu em sua célebre - ou nem tanto - palestra sobre esporte, que sejam esportivos comigo. Sim, respeitem a opinião, não concordem comigo, debatam e ataquem as ideias, mas  entendam a tristeza. Seres humanos, por erro de fábrica, sem recall, podem largar sua racionalidade e sentir tristeza. Gostaria de ser uma entidade para além do tempo e do espaço e não ter essa perplexidade nos olhos. Sejam esportivos, por favor, com quem pensa, de modo errado - ou não - que o futebol é uma linguagem inelegível ao Brasil, uma prática cultural que não resume, mas permite perceber uma sociedade. 

Dito isso, atesto: 8 de julho de 2014 é o dia mais triste da minha vida.

Sim, posso estar exagerando. Mas hoje, qualquer exagero é banal, é menor diante do mundo real.

É triste porque em seis minutos achava que teríamos outra postura, pressionamos, fomos ao ataque, buscamos o gol. Doce engodo... seis minutos que poderiam ser.... seis minutos que foram realidade. 4 gols. 

Taticamente o que podemos dizer? Escalou errado porque ficou com meio campo aberto? Não teve uma boa referência no ataque? Não marcou pressão? Assistiu toque de bole rápido? Não teve toque de bola e só fez ligações diretas? Não sei. Tudo ali era anacrônico, então ... tanto faz. 

Podemos dizer, com brado retumbante, que a convocação foi errada.Que faltou Lucas, Miranda, Felipe Coutinho, Romário, Zico, Garrincha, Mestre Ziza, Leônidas. Não faltou. Se faltasse, fossemos justos. Acusássemos antes, agora era o que tínhamos, uma pena, mas era o que tínhamos.

Nossa estrutura de futebol, tão mambembe e a falta de políticas públicas poderiam explicar. Temos que zerar, iniciar de novo. Elaborar leis que garantam o direito trabalhistas aos futebolistas de ambos os sexos; investir na categoria de base como alto rendimento, mas também como lazer; garantir dirigentes qualificados numa estrutura clubística rentável; garantir aos espectadores a possibilidade de  vivências positivas; usar de estudos e da academia para formação de técnicos e profissionais qualificados. Tudo isso, se melhorado, num futuro não tão próximo, resolveria os problemas. 

Mas não quero o futuro. Quero o hoje. Minhas lágrimas são de agora. São de um presente que ainda acho é parte de uma revista em quadrinhos: o mundo vai acabar de forma incrível, milhões morrerão, mas uma capa vermelha, um cinto amarelo, um laço mágico, um anel verde, um martelo dos deuses ou uma armadura resolverão. Lembrei, minhas lágrimas são de hoje e hoje ... não tenho super heróis. Devem estar ocupados com coisas mais importantes do que o futebol.

Quero dormir. Acordar num mundo melhor. Mas não vou. Amanhã continua a sensação de derrota. Daqui a 100 anos continuará. Está marcado na alma, nos corações e nas mentes. O sono, somente será um pesadelo. Estou pensando em dormir em Elm Street, acho que lá, será mais tranquilo. Nenhum bicho papão vai me dar tanto medo. 

Ah... são 7... poderiam ser 8 ... foi o que devia ser. A maior goleada da nossa história. Cem anos... solidão. 

Jogamos como sempre e perdemos como nunca.

Então eu penso: como será o amanhã? E aí penso ele vai ser pior. Vai ser pior porque todos vão dizer que sabiam, que escondidos pelo anonimato da mídia livre, tem vergonha do Brasil, dos atletas, que eles deviam receber menos, que deviam honrar a pátria, investir em outros esportes e até mesmo em hospitais. De tempos para cá tudo tem sido hospitais. 

Deveríamos ser o país dos hospitais. Muitos. Apodrecendo sem médicos e sem equipamentos, mas com prédios. Por favor, respeitem as lágrimas, temos sim que investir em outros esportes, mas não porque perdemos hoje ou porque ganharemos amanhã. E não é a vitória na Copa que decidirá os rumos presidenciais. Paremos de ser tão reacionários.

E nem venham com queima de bandeira. Nem somos patriotas, se quiserem chocar tratem de vestir roupa vermelha com foice e martelo.

Ainda estou em silêncio. Dentro de mim ainda terei esse silêncio para sempre. Pensei, no silêncio, será que foi assim que as pessoas se sentiram em 1950? É isso o Maracanaço?

Lembrei, no silêncio, não existe mais Maracanazzo. Ele acabou no quinto gol alemão. Ghiggia, Schiaffino, Varela... todos esses nomes não existem. Coloquem nomes alemães, Muller, Klose, Kroos. 

Lembrei que essa Copa era  para redimir Barbosa, Bigode, Juvenal. Barbosa em especial, porque ninguém ficou tanto tempo condenado nesse país. Goleiro cruzmaltino, com a autoridade a mim concedida por Clio, absolvo. 2014, absolveu todos de 1950. A tristeza de verdade é mais triste do que as doce recordações do que não vivemos.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Será que perdemos?

Não ouso pensar qual é o resultado do jogo contra a Alemanha. Na verdade, acho que em algum mundo paralelo esse jogo não vai ocorrer, em outro a Seleção vencerá e ainda há um, soturno, no qual perdemos de forma vexatória. Nunca sei em qual estou, nunca sei em qual acordarei, mas o resultado é banal.

O interessante é que a Copa que parecia uma grande derrota tem seus pontos de vitória. Se o melhor futebol ganhar  amanhã e voltarmos à Brasília no sábado, decidiremos com lágrimas um terceiro lugar e 64 anos de um trauma serão reescritos, contudo, estão abertas possibilidade de outra leitura.

Vimos uma Copa que ganhou reconhecimento dos estrangeiros e que soube construir uma imagem positiva de Brasil. Uma imagem que internamente parte de nossa sociedade refuta. Longe de ser uma imagem confiável, cabe pensar se as mazelas tão cantadas em nossos rincões não estão além de nossos ranços, senão são parte de um sistema universalizado de exclusão e desigualdade. Quando percebemos que não somos uma ilha de concreto poderemos pensar as mazelas sociais num nível macro e procurar discussões e eventuais soluções para além de nosso patriotismo pacheco.

Houve a derrota relativa de parte de uma mídia golpista que tanto enxerga unicórnios. O caos que previam e que seria manter conservadorismo em riste não ocorreu. Houve sim a escárnio de mídias internacionais ao mambembe senso crítico de nossas "mídias".

Há uma percepção de que sabemos que discursos tem que ser combatidos. Dos que acham que a Seleção perder é a derrota do PT, quando é a derrota de uma prática cultural que transcende o partido, além de continuar defendendo currais eleitorais. Ora, desculpem, mas quem pensa que a  Seleção ganhar ou perder define os rumos da política é quem acha que a sociedade é limitada.

São vitórias relativas, mas amanhã vencer também é relativo. Só por favor, lembrem que Neymar não é Pelé. Não o condenem tão cedo. Nem pensem que teremos um Amarildo, porque ainda, em muitos sentidos estamos procurando um Garrincha.