domingo, 29 de dezembro de 2013

Meus heróis - torcendo por Anderson

Meus heróis são estranhos.

Um punhado de filmes anacrônicos dos anos 1980, outro tanto vinha de grandes nomes que são requentados a toda hora por engajados de gabinete com frases de efeito, um super herói morcego e muitos esportistas.

Esses senhores dos filmes eles não me decepcionam. Continuam sendo esteriótipo de muita coisa que não aprovo, traços dos meus defeitos, mas dignos de perdão: são anacrônicos.

E o que dizer dos grandes nomes? Bem, como nunca sei se são eles os autores daquelas eloquentes frases, acabo tendo a inexata certeza de que eles não erram.

O Morcego? Bem, ele é o único que pode salvar o mundo do despotismo do Superman e seu bom-mocismo, então só posso admirá-lo.

O que me impressiona e faz chorar são os esportistas.

Sempre achei eles o mais interessantes, aqueles por quem não teria vergonha de acompanhar, que sabia serem históricos, reais e passíveis de grandes realizações. Achava que eram perfeitos e eternos.

Achava sim, que nenhum dos meus heróis poderia morrer. E a Tamburello provou que não era bem assim.
Achava sim, que eles voariam para sempre. Mas sem os Loony Tunes, os voos cessam.
Achava sim, que eles marcariam gols e evitariam tantos outros. Mas tucanar leva à descrença.
Achava sim, que levariam alegria à aristocracia. Mas as dores no quadril moem o verdeamrelismo da roupa.
Achava sim, que elas apagariam o fracasso sempre. Mas o joelho e o preconceito impedem cortadas.

E achava que alguns eram sobre humanos, aranhas, bailarinos. Mas também são soberbos, brincam e no escárnio perecem. Agora recolho os cacos, sei que esse meu herói ainda terá mais um ato. Voltará da dor, para o sucesso.

Mas tenho medo, mas não como aquela senhora que um dia foi atriz e hoje é cabo eleitoral de um velho senil.

Tenho medo, porque o que farei se descobrir que o Morcego não existe?

domingo, 22 de dezembro de 2013

Handebol campeã, quebrando até as regras da lógica

Às vezes os olhos não acreditam.

São lentos e imperfeitos, tão fáceis de serem enganados. Mas hoje, um domingo, um dia tão cinza, os olhos não se enganaram.
Na verdade, quem foi enganada foi a Lógica. Uma senhora velha, ocidental, servindo aos mandos, nunca à rebeldia. Hoje, no entanto, como muitos, ela se curvou. Curvou-se diante de um time de atletas, batalhadoras, superadoras.

Somos o país do Futebol, infelizmente. Nenhum lugar devia ser resumido a um mero substantivo. Mas somos ainda. Os gols da rodada, as explicações para a derrota do Galo, os casos de Neymar. Ainda são essas as manchetes. Mas a Lógica era que apenas um rodapé, na página dos Outros Esportes é que o Handebol deveria aparecer.

Nosso metier é a bola nos pés, é assim que fazemos gol. Ah Dona Lógica, gols são feitos com a mão. Com tiros certeiros, com jogadas de pivô, de ponta, de vibração, de técnica e de tática. Para tantos e tantos, foi só mais um domingo de gols, para nós que acreditamos, que somos ilógicos, foram os gols mais lindos. De meninas, não porque são frágeis ou infantilizadas, como bem faz nosso tacanho patriarcalismo. São meninas porque somos também meninas e meninos. Moleques em júbilo, brincando e sonhando.

O Brasil é campeã. Desculpe Camões, mas seria lógico reverenciá-lo, mas hoje quero ser ilógico.

PS: existem pontos que devem ser melhorados, mas a crítica fica para a segunda, porque sendo ela chata e as palavras imperfeitas, será mais coerente, ficar para depois 

domingo, 7 de abril de 2013

Para além do único clássico possível no Vôlei Feminino do Brasil



                Há um discurso recorrente de que o esporte no Brasil deveria mobilizar-se num esforço de organização tomando como exemplo máximo o voleibol. Quase como um mito, o trabalho realizado pelos gestores da modalidade nas últimas três décadas, com relativos resultados esportivos e financeiros, emerge como solução a ser replicada, como síntese da racionalidade e do compromisso, tão raros às organizações coletivas deste país. No entanto, essa máscara de excelência é porosa, constantemente carcomida e ainda assim defendida.
                Se o modelo que vamos seguir é o do vôlei, então algumas perguntas tem que ser respondidas de imediato. A primeira é sobre a pretensa organização. Ora, se temos diante de nossos olhos um oásis, por que a final da temporada ocorre o encerramento de atividades de equipes das Superligas Feminina e Masculina? Não há planejamento por parte dos clubes e de seus patrocinadores? Não há dinheiro que sustente a existência de um time? Se a resposta for afirmativa às duas questões, então a distância para aquilo que é tido como a bagunça maior, o futebol masculino, é mínima. E ainda há um calendário mambembe, levando atletas à exaustão com lesões rotineiras.
                É notório que se as Seleções gozam de estrutura de treinamento, marketing, boa gestão, dinheiro e patrocínios, o mesmo não ocorre com os clubes. Por mais que pareçam entidades profissionais, os clubes são apenas estamparia para marcas sazonais. Não há um apelo para a participação dos fãs, o que no modelo atual, é o que garante – seja com venda de produtos, ingressos ou com a audiência da televisão – o sucesso de um esporte. Desta forma, do ponto de vista do status quo  do esporte de rendimento, o mito não se sustenta.
                Pensando pelo lado pedagógico e também esportivo, o que se observa é que há sim um cume abruptamente distante de uma base insossa. Com uma elite ornamentada com bons resultados, não temos uma massificação – num difícil sentido que concilie quantidade e qualidade – que cumpriria com a proposta de um esporte que não seja apenas a competição, mas também possibilidade de lazer, integração, tolerância e reflexão crítica sobre o corpo. E desse tracejado engajado, por vezes utópico, surgiria um resultado esportivo: mais gente praticando, mais atletas.
                É claro que o vôlei brasileiro é bom, merece parabéns pelos acertos, mas também críticas pelos erros, no intuito de melhorias. É importante que se assassine o mito da “organização impecável” pelo bem da modalidade não apenas em sua vertente de rendimento. Sem isso, vamos continuar na insólita afirmação que não se sustenta de que temos o melhor campeonato nacional do mundo e que Parceiro Rio de Janeiro contra Parceiro Osasco fazem o grande clássico do vôlei feminino. Na verdade, como está posto hoje, com nove finais seguidas, não fazem o maior, mas o único que é possível no Brasil.

terça-feira, 5 de março de 2013

Em meio às disputas, o esporte universitário



                E vem dizem-nos um milhão de vezes, como naqueles cânticos mal ressoados no claustro da abadia, que o esporte paramentado de heróis olímpicos, se faz nas escolas. Se já não bastasse o tanto de peso que os seguidores de Capanema colocaram sob esta instituição, – com ar impávido e colossal – mais um para emergir dos livros de alfabetizar que ninguém lê. Irei anuir em tom irônico para perder amigos, mas ganhar a discussão. O celeiro – palavra que tanto remete a nosso passado agrícola teve ter hora e vez em outros Augustos Matracas. Contudo, pensando na seção universitária deste esporte, com um clamor quase de manifesto, mas sem antropofagia que nos fez tão bem ainda ontem, teço algumas considerações.
                Primeiro que ele deve ser feito por uma parceria de instituições de ensino e seus discentes. Não há outro caminho. Jogos não lúdicos em torno do neoliberalismo hão de fracassar. É no diálogo horizontal, nas propostas comuns que se faz uma verdadeira política em esporte universitário. Menções desconexas e citações rasteiras também não dão conta. Coletivo e discussão, primeiro ponto e chamem Caronte porque se este não for cumprido precisaremos de um bom atravessador e moedas de ouro.
                Segundo ponto é planejamento. Jargão gasto e sem uso nos ramos administrativos, muito bom quando se quer passar seriedade e se deixa o conteúdo no lavabo. Planejamento significa não se esgotar nos louros ou espinhos de um evento. Ir além, pensar sistematizado o que inserir e o que suprimir: por onde andar e por onde ir. E neste ponto, desculpem os desavisados, aos que querem glórias,  aqui as sereias são devoradoras de gente e os tesouros maldições milenares. Quem quer reconhecimento que busque a segunda porta à esquerda.
                Por fim um elemento de integração e diversão. Em vez de um treinamento tacanho com ordens unidas e verde oliva no fundo de tela, o esporte na universidade deve divertir, atrair pessoas, integrar grupos distintos. Formação social que é parte importante da formação profissional e intelectual, jamais indissolúvel. O esporte como pedagogia, é aqui o norte fundamental.
                Um projeto que tenha em seu escopo estes eixos merece o apoio. O resto que soçobre tormentas do Bojador.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Parabéns AJ



No século XX, o esporte virou celeiro para o surgimento de grandes ídolos. Num mundo em que os muitos Direitos Divinos perderam espaço e a Cultura da Paz domina os discursos vazios, a mimese que restou para os campos de batalhas com heróis e heroínas é, em muitas das vezes, o campo esportivo.

Há sim o problema da efemeridade: faltam-nos grandes epopeias e com o desenvolvimento de tantas mídias audiovisuais a imaginação que permitia aos dragões voar e aos monstros abissais bradarem ante o fervor de valores mágicos soçobrou. A própria carreira esportiva limitada a poucos anos de labuta, impõe a abrupta brevidade. Mas, ainda que o tempo não combine muito para que os mitos estejam aptos à longa duração, alguns se destacam.

Michael Jordan é um deles. O primeiro motivo parece óbvio: ajudou o ser humano em sua experiência de quase voar. Air Jordan, Sua Majestade Voadora, bailando no ar. Parecia ali, naquele salto despretensioso da linha de lance livre ao aro, que chegávamos ao Paraíso, que brincávamos todos, inebriados, parecer com os pássaros.

E o estudante da Carolina no Norte também tocou aqueles que não têm a poesia no peito. Talvez aí esteja sua grande cartada, pois, num mundo de concreto e de finanças, poções de amor que levam ao voo tendem a secar antes de serem fabricadas. AJ virou marca, comércio, cifras, como nenhum outro antes dele; como tantos outros depois. Tênis, camisetas, fotos, desenhos. A marca que invadiu até o mundo do faz de contas do coelho maldoso, do pato chato, do marsupial que anda por aí circulando.

Para uns ele fez chegar perto da magia do voo, para outros da realidade. Para todos perto de um herói. Mas não daqueles que pensam em ser divindade pagã. Herói de quem gosta um bom jogo.

Parabéns AJ.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Handebol: um prêmio e algumas reflexões.



                Com a premiação da Federação Internacional de Handebol (IHF) de melhor jogadora de 2012 para a ponta limeirense, Alexandra Nascimento, alguns pontos merecem uma reflexão mais inteligente do que os brados de jornalísticas apoteóticos ou que as lamúrias insossas da proto intelectualidade, tão amável ao regurgitar sobre práticas corporais como o esporte.
                Ora nem Inferno, nem Paraíso. Somos bons pretensos Iluministas, devemos sair um pouco destas trevas de mil anos que cobriram a razão. O sentimento inicial, ao saber que uma brasileira é considerada, de forma inédita, melhor handebolista, deve ser de alegria. Primeiro porque uma profissional conseguiu reconhecimento por seu trabalho. Ainda que o caráter pequeno burguês individualista salte aos olhos com tal afirmação, há sim que se parabenizar todo o esforço que resultou num agraciamento tão nobre.
                Por outro lado, mantendo os pés na concepção de coletivo, podemos notar que um esporte tipicamente europeu – talvez apenas a Coreia do Sul fuja à regra – esqueceu um pouco de seu etnocentrismo. Desculpem-me os moralistas, mas em grande parte as pompas de premiação esportiva resumem-se à Europa e à sua cria do outro lado do Atlântico que roubou para si o nome do continente. Quando de alguma forma, que não no futebol ou no jiu jitsu, o reconhecimento acontece há que se comemorar. Por mais que o Brasil tenha obtido melhores resultados nos últimos anos no handebol, seria pueril pensar que somos vistos paritariamente. Mas um reconhecimento individual, como este, mostra trilha nova.
                Os encantos, no entanto, devem ser comedidos. Muitos fogos de artifício podem causar lesões sérias. Bem, poupem da ladainha genérica de que o handebol no Brasil não consegue ir além porque falta estrutura. Esta proparoxítona é jargão de quem não quer discutir conteúdo, mas quer demonstrar domínio sobre a forma. Falta estrutura em qualquer área que se queira criticar, mas o que seria este gargalo?
                Nada do pseudo engajamento de que é o preconceito dos adultos, que ao ganharem 32 dentes viram seres vis e cruéis. Para que seja desenvolvido um conceito prévio, é preciso um conceito mínimo e nem isto temos. Mas que preconceito exatamente? Gênero? Mas o esporte no masculino é ainda mais mambembe que o feminino e seus adjetivos são afeitos aos referenciais masculinos? Étnico? Ora, poucos esportes talvez sejam tão “brancos”. Social? Mas não há vielas de barro sendo ocupadas por “peladas” com a mão. E podemos continuar a elencar, contudo, é perda de tempo. Quase tão torpe quanto este juízo que coloca num preconceito banal o cerne do problema.
                Há um problema na base. Na iniciação ao esporte. O handebol não tem espaço de práticas fora da escola. Tanto clubes privados quanto poder público pouco ou nada investem em categorias de base. As competições são confusas e pouco divulgadas. Os projetos não são perenes, sucumbem à menor borrasca. Mais ainda, nas escolas a modalidade é um híbrido pouco valoroso, virou um futebol com as mãos o que logo, pelo referencial cultural que é o futebol, transforma-o em figurante.
                Entramos na própria organização dos clubes, com times em ritmo amador, financiamento tortuoso e incerto. Sem clubes, no modelo europeu aqui adotado, fica complicado seguir no esporte, seja como lazer ou como profissão. Faltam praças esportivas que comportem a modalidade e mesmo materiais acessivos para o jogo. E se há uma possível luz no esporte universitário, em que os resultados são interessantes, ainda é pouco e na verdade não é uma via formadora, apenas suplementa as crateras dos clubes.
                O próprio modelo adotado, de privilegiar o alto rendimento tona qualquer possibilidade de massificação comprometida. Os estudos de treinamento, a psicologia e mesmo os aspectos pedagógicos ainda patina. Este é o país do futebol não porque tem jogo aos domingos ou porque se tece considerações jocosas ao time rival, mas sim porque a única possibilidade de relevância em determinados segmentos acadêmicos, sociais e profissionais resume-se ao futebol. Precisamos pensar o handebol como pedagogia, como lazer e como profissão.
                Precisamos se quisermos um esporte popular, que os fãs tenham como acompanhar os campeonatos e os jogadores. Uma circulação eficaz de noticiais, de resultados e de símbolos de pertencimento. A culpa não fica apenas nos ombros da mídia golpista cara de bobona, está também, e principalmente, no colo de ligas, associações, federações e confederação. A gestão do handebol, assim como noutras modalidades é amadora, mas é também egoísta e oligárquica.
                Fico muito contente com a premiação de Alexandra, na verdade foi uma das notícias esportivas mais felizes dos últimos meses. Mas tenho que usar da oportunidade para ser chato, levantar críticas. Chato e não triste, porque ainda tenho esperanças.