domingo, 17 de junho de 2018

ROUBARAM ATÉ NOSSA CAMISA

Hoje a Seleção Brasileira Masculina de futebol estreia na Copa do Mundo Fifa 2018. Em via de regra esse deveria ser um momento de grande expectativa para a população brasileira, o que parece não ocorrer neste ano. Há um clima de estranha normalidade no caminhar dessa Copa, como se fosse um torneio menor ou como se o interesse sobre o futebol tenha acabado, desmanchado no ar.

Bem, alguns motivos explicam isso. Dentro do campo, na esfera esportiva, pode-se explicar como uma grande ressaca pela derrota no Mineirão. Doí a alma um 7 a 1, ainda mais quando ele é em casa. Será sim um fantasma complexo, a viver por toda a vida de nosso futebol, assim como foi o Maracanazzo. Mas levantamos após tantas derrotas, portanto não é apenas essa questão que aflige a Copa.

Pode-se dizer que há um distanciamento da Seleção com a população, com atletas que saíram cedo do país, fizeram toda a carreira fora do Brasil. Não são grandes ídolos em clubes brasileiros, portanto, o elemento identitário que temos, reforçado no cotidianos, não existe. Talvez Neymar seja a exceção, mas aí há um ídolo, que por muitos motivos, não é ídolo de fato.

Há então razões externas. Elas passam por um processo de roubo das legitimidades. O primeiro desses roubos é mergulhar o país num amplo caos. Roubaram a democracia do Brasil - se é que um dia ela existiu - quando perder a eleição significou levar um Estado a uma crise social, política e econômica. Como senhores mimados, quem perdeu não entendeu a regras básicas do esporte e fez o que fez.

Um segundo roubo foi com nossos sonhos. Roubaram a ideia de um país com maiores justiças sociais. Não sei ao certo quando esse roubo começou, mas tem relação com quem desistiu de entender o Brasil e resolveu privatizar a vida, portanto, há muito tempo. Continuaram a vilipendiar, mas parece que nesses último tempos, com desgoverno isso cresceu.

Terceiro, há um roubo constante contra a Cultura Popular. O Carnaval é alienação; as Festas Juninas são religiosas; o Futebol é ópio; o samba é macumba. É nosso processo de conservadorismo, envolto em tons fundamentalistas. E aí, baluartes da mobilização, vem dizer que tudo isso é supérfluo, que mostra porque o país não progride. O país não progride porque se preocupa mais com que se beija, com quem fuma, com quem reza diferente, com quem privatiza mais. Desculpem-me gênios a cultura popular é resistência não é alienação; é formação integral.

Por fim, e acho que é o mais grave. Roubaram o nosso direito de vestir verde-e-amarelo. Quando visto a camisa amarelo parece que apoiei um Golpe contra a sanidade. Que vou a um tempo religioso destruir todos os outros. Parece que vou vender ao Capital meus sonhos. Parece que há um pato de plástico tão artificial e infantil a nos devorar. Roubaram a nossa torcida.

Mas os roubo parou. Não é nada de lavar a jato, porque de hipocrisia nos basta achar que ética é um conceito fechado e pronto a obedecer o status quo. Parou o roubo porque vamos subverter. Vestirei o manto da Seleção branco. Branco como foi em 1950, não pela nostalgia, mas porque quero gritar que sim, torcer para o futebol não faz de ninguém alienado. Faz parte de uma Comunidade Imaginada.

Faz parte da certeza que precisamos vencer fantasmas. Resinificar. A resistência está posta. Este será a Copa que nos devolverão o que nos foi subtraído.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Espírito Olímpico



                Com a Tocha no Rio, o Espírito Olímpico parece que chegou.  Sempre ouvi falar dessa entidade, mas imaginava-a como aqueles desenhos dos anos de 1950 de fantasmas em camaradagem, contudo, parece que aportou nessas terras de além mar o casmurro personagens de Dickens: o Natal do Futuro.
                Digo isso não com a tônica pessimista de que tudo está errado e que a vergonha embala a “terra mais garrida”. Erros de infra estrutura não são mais apenas exclusividade de nós, brasileiras e brasileiros, ao sediar grande eventos esportivos. Verdade seja dita que os sentimos com maior intensidade, pois Guadalajara ou Beijing não estão do outro lado da rua ou depois da mercearia da esquina. Há que dividir o Jogos Rio 2016 em duas – para não dizer dúzias – faces; uma que versa sobre planejamento e infraestrutura e a outra sobre esporte. Apenas comento a segunda.
                A década de grande eventos esportivos que encerra-se com os Jogos Olimpicos e Paralímpicos teve início com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Panamericanos de 2007 – primeira vez que uma cidade estadunidense perdeu a disputa por jogos multi esportivos. Como a escolha ocorreu ainda em 2000, significa que desde aquele ano sabia-se que a agenda esporiva seria ímpar. E foi. Mundial Feminino de Basquete (2006), Mundial Feminino de Handebol (2011), Finais da Liga Mundial de Voleibol (2008 e 2015), Etapas do Grand Prix de Volei Feminio, Etapas da Copa do Mundo de Ginástica, Grand Slam de Judô, Copa das Confederações de Futebol (2013) e eventos de exibição são alguns exemplos esportivos realizados aqui. Eventos de amplo impacto como os Jogos Mundiais Militares (2011) e a Copa do Mundo (2014).
                Essa miríade de eventos não transformou o país numa “pátria esportiva”. Digo isso no sentido do alto rendimento, mas também naquele que é o mais importante, no esporte como caminho educacional e de impacto social. É possível se atingir a meta de Top 10, das cerca de 30 medalhas que colocaram o país no panteão das grandes potências olímpicas, mas há que se refletir se os gastos aplicados pelo Poder Público – diretos e indiretos – possibilitaram que mais indivíduos tenham condições de chegar ao alto rendimento. Se a resposta não for categórica em dizer que sim, se olharmos com ressalvas, então o tal legado é o pior possível.

                

terça-feira, 8 de julho de 2014

Acabou o Fantasma de 1950

Primeiro gostaria de pedir, assim como Bourdieu em sua célebre - ou nem tanto - palestra sobre esporte, que sejam esportivos comigo. Sim, respeitem a opinião, não concordem comigo, debatam e ataquem as ideias, mas  entendam a tristeza. Seres humanos, por erro de fábrica, sem recall, podem largar sua racionalidade e sentir tristeza. Gostaria de ser uma entidade para além do tempo e do espaço e não ter essa perplexidade nos olhos. Sejam esportivos, por favor, com quem pensa, de modo errado - ou não - que o futebol é uma linguagem inelegível ao Brasil, uma prática cultural que não resume, mas permite perceber uma sociedade. 

Dito isso, atesto: 8 de julho de 2014 é o dia mais triste da minha vida.

Sim, posso estar exagerando. Mas hoje, qualquer exagero é banal, é menor diante do mundo real.

É triste porque em seis minutos achava que teríamos outra postura, pressionamos, fomos ao ataque, buscamos o gol. Doce engodo... seis minutos que poderiam ser.... seis minutos que foram realidade. 4 gols. 

Taticamente o que podemos dizer? Escalou errado porque ficou com meio campo aberto? Não teve uma boa referência no ataque? Não marcou pressão? Assistiu toque de bole rápido? Não teve toque de bola e só fez ligações diretas? Não sei. Tudo ali era anacrônico, então ... tanto faz. 

Podemos dizer, com brado retumbante, que a convocação foi errada.Que faltou Lucas, Miranda, Felipe Coutinho, Romário, Zico, Garrincha, Mestre Ziza, Leônidas. Não faltou. Se faltasse, fossemos justos. Acusássemos antes, agora era o que tínhamos, uma pena, mas era o que tínhamos.

Nossa estrutura de futebol, tão mambembe e a falta de políticas públicas poderiam explicar. Temos que zerar, iniciar de novo. Elaborar leis que garantam o direito trabalhistas aos futebolistas de ambos os sexos; investir na categoria de base como alto rendimento, mas também como lazer; garantir dirigentes qualificados numa estrutura clubística rentável; garantir aos espectadores a possibilidade de  vivências positivas; usar de estudos e da academia para formação de técnicos e profissionais qualificados. Tudo isso, se melhorado, num futuro não tão próximo, resolveria os problemas. 

Mas não quero o futuro. Quero o hoje. Minhas lágrimas são de agora. São de um presente que ainda acho é parte de uma revista em quadrinhos: o mundo vai acabar de forma incrível, milhões morrerão, mas uma capa vermelha, um cinto amarelo, um laço mágico, um anel verde, um martelo dos deuses ou uma armadura resolverão. Lembrei, minhas lágrimas são de hoje e hoje ... não tenho super heróis. Devem estar ocupados com coisas mais importantes do que o futebol.

Quero dormir. Acordar num mundo melhor. Mas não vou. Amanhã continua a sensação de derrota. Daqui a 100 anos continuará. Está marcado na alma, nos corações e nas mentes. O sono, somente será um pesadelo. Estou pensando em dormir em Elm Street, acho que lá, será mais tranquilo. Nenhum bicho papão vai me dar tanto medo. 

Ah... são 7... poderiam ser 8 ... foi o que devia ser. A maior goleada da nossa história. Cem anos... solidão. 

Jogamos como sempre e perdemos como nunca.

Então eu penso: como será o amanhã? E aí penso ele vai ser pior. Vai ser pior porque todos vão dizer que sabiam, que escondidos pelo anonimato da mídia livre, tem vergonha do Brasil, dos atletas, que eles deviam receber menos, que deviam honrar a pátria, investir em outros esportes e até mesmo em hospitais. De tempos para cá tudo tem sido hospitais. 

Deveríamos ser o país dos hospitais. Muitos. Apodrecendo sem médicos e sem equipamentos, mas com prédios. Por favor, respeitem as lágrimas, temos sim que investir em outros esportes, mas não porque perdemos hoje ou porque ganharemos amanhã. E não é a vitória na Copa que decidirá os rumos presidenciais. Paremos de ser tão reacionários.

E nem venham com queima de bandeira. Nem somos patriotas, se quiserem chocar tratem de vestir roupa vermelha com foice e martelo.

Ainda estou em silêncio. Dentro de mim ainda terei esse silêncio para sempre. Pensei, no silêncio, será que foi assim que as pessoas se sentiram em 1950? É isso o Maracanaço?

Lembrei, no silêncio, não existe mais Maracanazzo. Ele acabou no quinto gol alemão. Ghiggia, Schiaffino, Varela... todos esses nomes não existem. Coloquem nomes alemães, Muller, Klose, Kroos. 

Lembrei que essa Copa era  para redimir Barbosa, Bigode, Juvenal. Barbosa em especial, porque ninguém ficou tanto tempo condenado nesse país. Goleiro cruzmaltino, com a autoridade a mim concedida por Clio, absolvo. 2014, absolveu todos de 1950. A tristeza de verdade é mais triste do que as doce recordações do que não vivemos.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Será que perdemos?

Não ouso pensar qual é o resultado do jogo contra a Alemanha. Na verdade, acho que em algum mundo paralelo esse jogo não vai ocorrer, em outro a Seleção vencerá e ainda há um, soturno, no qual perdemos de forma vexatória. Nunca sei em qual estou, nunca sei em qual acordarei, mas o resultado é banal.

O interessante é que a Copa que parecia uma grande derrota tem seus pontos de vitória. Se o melhor futebol ganhar  amanhã e voltarmos à Brasília no sábado, decidiremos com lágrimas um terceiro lugar e 64 anos de um trauma serão reescritos, contudo, estão abertas possibilidade de outra leitura.

Vimos uma Copa que ganhou reconhecimento dos estrangeiros e que soube construir uma imagem positiva de Brasil. Uma imagem que internamente parte de nossa sociedade refuta. Longe de ser uma imagem confiável, cabe pensar se as mazelas tão cantadas em nossos rincões não estão além de nossos ranços, senão são parte de um sistema universalizado de exclusão e desigualdade. Quando percebemos que não somos uma ilha de concreto poderemos pensar as mazelas sociais num nível macro e procurar discussões e eventuais soluções para além de nosso patriotismo pacheco.

Houve a derrota relativa de parte de uma mídia golpista que tanto enxerga unicórnios. O caos que previam e que seria manter conservadorismo em riste não ocorreu. Houve sim a escárnio de mídias internacionais ao mambembe senso crítico de nossas "mídias".

Há uma percepção de que sabemos que discursos tem que ser combatidos. Dos que acham que a Seleção perder é a derrota do PT, quando é a derrota de uma prática cultural que transcende o partido, além de continuar defendendo currais eleitorais. Ora, desculpem, mas quem pensa que a  Seleção ganhar ou perder define os rumos da política é quem acha que a sociedade é limitada.

São vitórias relativas, mas amanhã vencer também é relativo. Só por favor, lembrem que Neymar não é Pelé. Não o condenem tão cedo. Nem pensem que teremos um Amarildo, porque ainda, em muitos sentidos estamos procurando um Garrincha.

domingo, 15 de junho de 2014

A Copa Começou

               E começou a Copa do Mundo. Estranho que o clima de Copa, esse, ainda é um senhor desconhecido, talvez pegasse o voo errado e se perdido numa das 12 sedes. Na verdade, acho que ele sabiamente deixou de vir para setores mais complicados, lugares em que ainda se pensa tão bem de entradas e bandeiras. Mas começou. Alienação então está a postos? Receio, aos mais grandiloquentes que não.
               Sim, estamos diante de uma entidade extremamente corrupta, que destruiu boa parte do encanto do futebol e que resolveu ser chancela para tudo. Pobre menina rica essa FIFA. Acha-se senhora do jogo. Pode até ter um monopólio, mas o jogo é popular, é parte do conjunto de símbolos da Comunidade Imaginada Brasil e vai desencadear turbilhões que não estão nas amarras desse tal padrão.
               Turbilhões que não são esses cartazes em ritmo de UDN que condicionam melhorias sociais a construir mais hospitais e escolas, mas não entendem que prédios não farão diferença e que é a estrutura de poder o problema e não uma pessoa que deve tomar caminhos escusos do trato intestinal. A crítica, bem vinda, deveria pensar mais em como a discussão sobre o lazer e o esporte, parte de uma possibilidade de libertação de trabalhadoras e trabalhadores nunca ocorre. Não estavam lá, como não estavam aqueles que deveriam dar conta de pensar que o espaço público, esse sim, foi violentado pela forma como se pensou esse campeonato mundial de futebol.

               A Copa começou e podemos ter a chance de ver que argumentos discutir. Se o ódio às injustiças vai suplantar o futebol e suas possibilidades sociais – aquelas que vão além dos discursos popularesco em torno de Gilberto Freyre – ou se vamos encarar essa prática corporal como parte de uma guinada social. Vamos escolher se é o discurso de reacionarismo e incompetência que brada sem proposição ou se é um debate sério de rumos e projetos. A Copa começou, essas escolhas precisam começar.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Meus heróis - torcendo por Anderson

Meus heróis são estranhos.

Um punhado de filmes anacrônicos dos anos 1980, outro tanto vinha de grandes nomes que são requentados a toda hora por engajados de gabinete com frases de efeito, um super herói morcego e muitos esportistas.

Esses senhores dos filmes eles não me decepcionam. Continuam sendo esteriótipo de muita coisa que não aprovo, traços dos meus defeitos, mas dignos de perdão: são anacrônicos.

E o que dizer dos grandes nomes? Bem, como nunca sei se são eles os autores daquelas eloquentes frases, acabo tendo a inexata certeza de que eles não erram.

O Morcego? Bem, ele é o único que pode salvar o mundo do despotismo do Superman e seu bom-mocismo, então só posso admirá-lo.

O que me impressiona e faz chorar são os esportistas.

Sempre achei eles o mais interessantes, aqueles por quem não teria vergonha de acompanhar, que sabia serem históricos, reais e passíveis de grandes realizações. Achava que eram perfeitos e eternos.

Achava sim, que nenhum dos meus heróis poderia morrer. E a Tamburello provou que não era bem assim.
Achava sim, que eles voariam para sempre. Mas sem os Loony Tunes, os voos cessam.
Achava sim, que eles marcariam gols e evitariam tantos outros. Mas tucanar leva à descrença.
Achava sim, que levariam alegria à aristocracia. Mas as dores no quadril moem o verdeamrelismo da roupa.
Achava sim, que elas apagariam o fracasso sempre. Mas o joelho e o preconceito impedem cortadas.

E achava que alguns eram sobre humanos, aranhas, bailarinos. Mas também são soberbos, brincam e no escárnio perecem. Agora recolho os cacos, sei que esse meu herói ainda terá mais um ato. Voltará da dor, para o sucesso.

Mas tenho medo, mas não como aquela senhora que um dia foi atriz e hoje é cabo eleitoral de um velho senil.

Tenho medo, porque o que farei se descobrir que o Morcego não existe?

domingo, 22 de dezembro de 2013

Handebol campeã, quebrando até as regras da lógica

Às vezes os olhos não acreditam.

São lentos e imperfeitos, tão fáceis de serem enganados. Mas hoje, um domingo, um dia tão cinza, os olhos não se enganaram.
Na verdade, quem foi enganada foi a Lógica. Uma senhora velha, ocidental, servindo aos mandos, nunca à rebeldia. Hoje, no entanto, como muitos, ela se curvou. Curvou-se diante de um time de atletas, batalhadoras, superadoras.

Somos o país do Futebol, infelizmente. Nenhum lugar devia ser resumido a um mero substantivo. Mas somos ainda. Os gols da rodada, as explicações para a derrota do Galo, os casos de Neymar. Ainda são essas as manchetes. Mas a Lógica era que apenas um rodapé, na página dos Outros Esportes é que o Handebol deveria aparecer.

Nosso metier é a bola nos pés, é assim que fazemos gol. Ah Dona Lógica, gols são feitos com a mão. Com tiros certeiros, com jogadas de pivô, de ponta, de vibração, de técnica e de tática. Para tantos e tantos, foi só mais um domingo de gols, para nós que acreditamos, que somos ilógicos, foram os gols mais lindos. De meninas, não porque são frágeis ou infantilizadas, como bem faz nosso tacanho patriarcalismo. São meninas porque somos também meninas e meninos. Moleques em júbilo, brincando e sonhando.

O Brasil é campeã. Desculpe Camões, mas seria lógico reverenciá-lo, mas hoje quero ser ilógico.

PS: existem pontos que devem ser melhorados, mas a crítica fica para a segunda, porque sendo ela chata e as palavras imperfeitas, será mais coerente, ficar para depois