Com a premiação da Federação
Internacional de Handebol (IHF) de melhor jogadora de 2012 para a ponta
limeirense, Alexandra Nascimento, alguns pontos merecem uma reflexão mais
inteligente do que os brados de jornalísticas apoteóticos ou que as lamúrias insossas
da proto intelectualidade, tão amável ao regurgitar sobre práticas corporais
como o esporte.
Ora
nem Inferno, nem Paraíso. Somos bons pretensos Iluministas, devemos sair um
pouco destas trevas de mil anos que cobriram a razão. O sentimento inicial, ao
saber que uma brasileira é considerada, de forma inédita, melhor handebolista,
deve ser de alegria. Primeiro porque uma profissional conseguiu reconhecimento
por seu trabalho. Ainda que o caráter pequeno burguês individualista salte aos
olhos com tal afirmação, há sim que se parabenizar todo o esforço que resultou
num agraciamento tão nobre.
Por outro lado, mantendo os pés
na concepção de coletivo, podemos notar que um esporte tipicamente europeu –
talvez apenas a Coreia do Sul fuja à regra – esqueceu um pouco de seu
etnocentrismo. Desculpem-me os moralistas, mas em grande parte as pompas de premiação
esportiva resumem-se à Europa e à sua cria do outro lado do Atlântico que
roubou para si o nome do continente. Quando de alguma forma, que não no futebol
ou no jiu jitsu, o reconhecimento acontece há que se comemorar. Por mais que o
Brasil tenha obtido melhores resultados nos últimos anos no handebol, seria
pueril pensar que somos vistos paritariamente. Mas um reconhecimento individual,
como este, mostra trilha nova.
Os encantos, no entanto, devem
ser comedidos. Muitos fogos de artifício podem causar lesões sérias. Bem, poupem
da ladainha genérica de que o handebol no Brasil não consegue ir além porque
falta estrutura. Esta proparoxítona é jargão de quem não quer discutir conteúdo,
mas quer demonstrar domínio sobre a forma. Falta estrutura em qualquer área que
se queira criticar, mas o que seria este gargalo?
Nada do pseudo engajamento de
que é o preconceito dos adultos, que ao ganharem 32 dentes viram seres vis e cruéis.
Para que seja desenvolvido um conceito prévio, é preciso um conceito mínimo e
nem isto temos. Mas que preconceito exatamente? Gênero? Mas o esporte no
masculino é ainda mais mambembe que o feminino e seus adjetivos são afeitos aos
referenciais masculinos? Étnico? Ora, poucos esportes talvez sejam tão “brancos”.
Social? Mas não há vielas de barro sendo ocupadas por “peladas” com a mão. E
podemos continuar a elencar, contudo, é perda de tempo. Quase tão torpe quanto
este juízo que coloca num preconceito banal o cerne do problema.
Há um problema na base. Na
iniciação ao esporte. O handebol não tem espaço de práticas fora da escola.
Tanto clubes privados quanto poder público pouco ou nada investem em categorias
de base. As competições são confusas e pouco divulgadas. Os projetos não são
perenes, sucumbem à menor borrasca. Mais ainda, nas escolas a modalidade é um
híbrido pouco valoroso, virou um futebol com as mãos o que logo, pelo referencial
cultural que é o futebol, transforma-o em figurante.
Entramos na própria organização
dos clubes, com times em ritmo amador, financiamento tortuoso e incerto. Sem
clubes, no modelo europeu aqui adotado, fica complicado seguir no esporte, seja
como lazer ou como profissão. Faltam praças esportivas que comportem a
modalidade e mesmo materiais acessivos para o jogo. E se há uma possível luz no
esporte universitário, em que os resultados são interessantes, ainda é pouco e
na verdade não é uma via formadora, apenas suplementa as crateras dos clubes.
O próprio modelo adotado, de privilegiar
o alto rendimento tona qualquer possibilidade de massificação comprometida. Os
estudos de treinamento, a psicologia e mesmo os aspectos pedagógicos ainda
patina. Este é o país do futebol não porque tem jogo aos domingos ou porque se
tece considerações jocosas ao time rival, mas sim porque a única possibilidade
de relevância em determinados segmentos acadêmicos, sociais e profissionais
resume-se ao futebol. Precisamos pensar o handebol como pedagogia, como lazer e
como profissão.
Precisamos se quisermos um
esporte popular, que os fãs tenham como acompanhar os campeonatos e os
jogadores. Uma circulação eficaz de noticiais, de resultados e de símbolos de
pertencimento. A culpa não fica apenas nos ombros da mídia golpista cara de
bobona, está também, e principalmente, no colo de ligas, associações,
federações e confederação. A gestão do handebol, assim como noutras modalidades
é amadora, mas é também egoísta e oligárquica.
Fico muito contente com a
premiação de Alexandra, na verdade foi uma das notícias esportivas mais felizes
dos últimos meses. Mas tenho que usar da oportunidade para ser chato, levantar
críticas. Chato e não triste, porque ainda tenho esperanças.
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