No século XX, o
esporte virou celeiro para o surgimento de grandes ídolos. Num mundo em que os
muitos Direitos Divinos perderam espaço e a Cultura da Paz domina os discursos
vazios, a mimese que restou para os campos de batalhas com heróis e heroínas é,
em muitas das vezes, o campo esportivo.
Há sim o problema da
efemeridade: faltam-nos grandes epopeias e com o desenvolvimento de tantas
mídias audiovisuais a imaginação que permitia aos dragões voar e aos monstros
abissais bradarem ante o fervor de valores mágicos soçobrou. A própria carreira
esportiva limitada a poucos anos de labuta, impõe a abrupta brevidade. Mas,
ainda que o tempo não combine muito para que os mitos estejam aptos à longa
duração, alguns se destacam.
Michael Jordan é um deles. O
primeiro motivo parece óbvio: ajudou o ser humano em sua experiência de quase
voar. Air Jordan, Sua Majestade Voadora, bailando no ar. Parecia ali, naquele
salto despretensioso da linha de lance livre ao aro, que chegávamos ao Paraíso,
que brincávamos todos, inebriados, parecer com os pássaros.
E o estudante da Carolina no
Norte também tocou aqueles que não têm a poesia no peito. Talvez aí esteja sua
grande cartada, pois, num mundo de concreto e de finanças, poções de amor que
levam ao voo tendem a secar antes de serem fabricadas. AJ virou marca,
comércio, cifras, como nenhum outro antes dele; como tantos outros depois.
Tênis, camisetas, fotos, desenhos. A marca que invadiu até o mundo do faz de
contas do coelho maldoso, do pato chato, do marsupial que anda por aí
circulando.
Para uns ele fez chegar perto da
magia do voo, para outros da realidade. Para todos perto de um herói. Mas não
daqueles que pensam em ser divindade pagã. Herói de quem gosta um bom jogo.
Parabéns AJ.
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