Há um discurso recorrente de que
o esporte no Brasil deveria mobilizar-se num esforço de organização tomando
como exemplo máximo o voleibol. Quase como um mito, o trabalho realizado pelos
gestores da modalidade nas últimas três décadas, com relativos resultados
esportivos e financeiros, emerge como solução a ser replicada, como síntese da
racionalidade e do compromisso, tão raros às organizações coletivas deste país.
No entanto, essa máscara de excelência é porosa, constantemente carcomida e
ainda assim defendida.
Se o modelo que vamos seguir é o
do vôlei, então algumas perguntas tem que ser respondidas de imediato. A
primeira é sobre a pretensa organização. Ora, se temos diante de nossos olhos
um oásis, por que a final da temporada ocorre o encerramento de atividades de equipes
das Superligas Feminina e Masculina? Não há planejamento por parte dos clubes e
de seus patrocinadores? Não há dinheiro que sustente a existência de um time?
Se a resposta for afirmativa às duas questões, então a distância para aquilo que
é tido como a bagunça maior, o futebol masculino, é mínima. E ainda há um calendário
mambembe, levando atletas à exaustão com lesões rotineiras.
É notório que se as Seleções
gozam de estrutura de treinamento, marketing, boa gestão, dinheiro e patrocínios,
o mesmo não ocorre com os clubes. Por mais que pareçam entidades profissionais,
os clubes são apenas estamparia para marcas sazonais. Não há um apelo para a
participação dos fãs, o que no modelo atual, é o que garante – seja com venda
de produtos, ingressos ou com a audiência da televisão – o sucesso de um
esporte. Desta forma, do ponto de vista do status
quo do esporte de rendimento, o mito
não se sustenta.
Pensando pelo lado pedagógico e
também esportivo, o que se observa é que há sim um cume abruptamente distante
de uma base insossa. Com uma elite ornamentada com bons resultados, não temos
uma massificação – num difícil sentido que concilie quantidade e qualidade – que
cumpriria com a proposta de um esporte que não seja apenas a competição, mas também
possibilidade de lazer, integração, tolerância e reflexão crítica sobre o
corpo. E desse tracejado engajado, por vezes utópico, surgiria um resultado
esportivo: mais gente praticando, mais atletas.
É claro que o vôlei brasileiro é
bom, merece parabéns pelos acertos, mas também críticas pelos erros, no intuito
de melhorias. É importante que se assassine o mito da “organização impecável”
pelo bem da modalidade não apenas em sua vertente de rendimento. Sem isso,
vamos continuar na insólita afirmação que não se sustenta de que temos o melhor
campeonato nacional do mundo e que Parceiro Rio de Janeiro contra Parceiro
Osasco fazem o grande clássico do vôlei feminino. Na verdade, como está posto
hoje, com nove finais seguidas, não fazem o maior, mas o único que é possível
no Brasil.
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